segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Parte do Mundo 02

É tão bom essas pessoas que fazem faxina pra você.
Conforme o esperado, meia hora depois o interfone tocou, -sim minha casa tinha um interfone, o portão ficava muito longe da porta, era útil- e eu atendi.
-Sim?
-É da limpeza.
Apertei o botão para abrir o portão elétrico. Escutei um chiado pelo telefone e um homem dizendo:
-Abriu, obrigada.
A essa altura, já não tinha mais ninguém desmaiado no chão, alguns bebados, mas ninguém em estado grave. A maioria já tinha até, ido embora.
Samy e Jim ainda estavam lá comigo, até que escutei Samy dizer:
-Já vou, já deve estar escuro, alguns já foram. Você se cuida Iza?
-Sim sim.
-Samy, me da uma carona? - Jim, sempre folgado.
-Claro, vamos.
Samy me deu um abraço e Jim um beijo no rosto.
-Tchau Iza.
-Tchau gente.
Me despedi deles na porta de entrada do salão de festas. O pessoal da limpeza já estava começando a limpar a biblioteca quando o supervisor veio até mim.
-Senhorita, a área de cima...?
-Está limpa, somente aqui em baixo, cozinha, biblioteca, salão, quintal, vocês conhecem tudo.
-Sim senhorita.
-Olha já vou deixar pago, e vou permanecer no andar de cima.
Andei até uma mesa do lado da entrada da cozinha onde havia um telefone sem fio.
-Caso queira falar comigo, aperte *5 e irá tocar no meu quarto, agora me deixe só pegar a carteira.
Fui até meu quarto e virei a bolsa em cima da cama, achei a carteira e desci procurando o mesmo homem que tinha falado minutos atrás. Encontrei ele na cozinha.
-Sr., aqui, o pagamento. - Peguei um talão de cheque e escrevi a quantia de 400 reais, depois entreguei e disse:
-Estarei no meu quarto, qualquer coisa, sabe como falar comigo.
-Sim senhorita, obrigada.
Subi as escadas com o corpo pesando uma tonelada.
"Preciso tomar um banho para juntar forças e lavar esse cabelo imundo."
Entrei no quarto e fui direto para o banheiro, peguei uma toalha preta na gaveta em baixo da pia e tirei a roupa, olhando a situação dos pulsos.
Estavam machucados.
"Cortei muito fundo."
Pensei em Jim, os cortes dele deviam estar tão fundos quanto os meus, dexei pra lá.
Peguei a meia calça arrastão e joguei no lixo, depois, só vi a banheira com a água soltando vapor, entrei aos pouco deixando o corpo extremamente gelado se acostumar com a temperatura quente, em um minuto estava submersa, lavando os cabelos vermelhos e tentando tirar a sujeira do corpo. Mas é impressionante como o cheiro do vinho pega na nossa pele e parece que não quer sair nunca mais. Me dexei largar na água até que a temperatura foi baixando e achei melhor sair, me enrolei na toalha e fui andando e pingando água até o quarto. Peguei o secador em uma das gavetas no armário e começei a secar o cabelo molhado. Olhei no relógio.
"17:53"
"Nossa, quanto tempo perdido."
Então aconteceu, o telefone da linha interna tocou, atendi, pensando que só poderia ser duas pessoas, Martha ou o homem da limpeza.
-Sim?
-Senhorita Dortson? - Era o homem da limpeza, o que raios ele queria comigo?
-Pois não...?
-Acho que temos um problema...
A voz dele parecia tremula e eu realmente não entendi, será que eles quebraram algo?
-Só um minuto, estarei ai em 10 minutos.
-Senhorita, é melhor se apressar...
-Está bem, já estou indo. - Eu disse já ficando impaciente.
Coloquei a calça jeans mais próxima e coloquei um casaco, prendi os cabelos, que ainda estavam meio umidos e desci.
Aos poucos fui ouvindo uma agitação mais do que normal no andar de baixo.
"Mas o que merda eles fizeram?"
Quando cheguei na escada, dei de cara com o salão de festas e me segurei para não cair.
O homem da limpeza estava estendido no meio do salão, com o sangue jorrando de sua cabeça. Prendi a respiração para não sentir o cheiro de sangue.
Procurei mais informações, mas tudo o que eu via era o vazio.
Andei até o homem com os punhos fechados e a respiração travada, depois, o virei e peguei seu crachá.
-Milton...
Morto, completamente morto, uma bala na cabeça, certeira, o tiro não havia vindo de longe, olhei e logo vi, a queima roupa, usando um silenciador.
Minhas duas perguntas eram simples, quem e por que?
Por que alguém iria matar aquele homem, um cara que supervisiona a limpeza na casa dos outros e o mais intrigante, por que mata-lo?
Olhei em volta, a porta principal que dava para o jardim da frente estava aberta e a ventania castigava a porta, fazendo com que ela batesse contra a parede inumeras vezes.
Fui até a porta e olhei a imensidão do jardim. Já estava ficando escuro, mais do que o normal.
Então eu senti, uma pancada na nuca que faria um ser humano qualquer desmaiar.
Mas não a mim.

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